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O Cerrado e suas flores

Hélder Consolaro, biólogo.


O Cerrado, reconhecido mundialmente como uma vegetação savânica, possui diferentes formações vegetacionais, não podendo ser considerado um bioma paisagisticamente homogêneo. Suas formações caracterizam 11 tipos principais, sendo subdivididos em Formações Florestais (Mata Ciliar, Mata de Galeria – Figura 1A, Mata Seca e Cerradão), Savânicas (cerrado, Vereda, Parque de cerrado e Palmeiral) e Campestres (Campo Sujo – Figura 1B, Campo Limpo e Campo Rupestre). As espécies que ocorrem nesses locais estão ligadas diretamente às características físicas e biológicas da área e também as exigências de cada espécie.


Figura 1. A. Caracterização de uma Mata de Galeria ao fundo da foto, estrato arbóreo bem representativo. B. Caracterização de um Campo Sujo, estrato herbáceo com maior representação (gramíneas) e estrato arbustivo menos presente (espécies de maior porte).

A localização do bioma está concentrada principalmente no Planalto Central Brasileiro, no qual abrange os Estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal, ocupando 196.776.853 ha. Além dessas regiões, existem áreas disjuntas do bioma associado com outros biomas, como floresta Amazônica, Caatinga, floresta Atlântica, Pantanal e floresta de Pinheiro do sul do país.
O Cerrado é considerado um dos ecossistemas mais ricos dentre as savanas mundiais, possuindo cerca de 160.000 espécies, de forma que 87% estão distribuídas entre insetos, fungos e plantas que formam flores e frutos (chamadas Angiospermas – Figura 2). Dentre os 87%, 10.000 espécies são referentes às Angiospermas, onde tal vegetação encontra-se sobre vários tipos de solo, sobretudo solos bem drenados, profundos, ácidos, pobres em nutrientes e com alta saturação de alumínio. Tais características de solo, associado com eventos históricos e com o fogo, são os principais responsáveis pelos padrões vegetacionais do bioma.


Figura 2. Coccosypselum lanceolatum (Rubiaceae) representando uma Angiosperma. A. Fase de floraçãoe B. fase de frutificação.

Pelo Cerrado possuir períodos climáticos bem delimitados, com período de seca de maio a setembro e período chuvoso de outubro a abril, o comportamento dos ciclos anuais de floração e frutificação de suas espécies ajustam-se a essas condições. Estudos desses ciclos têm indicado diferenças básicas entre o comportamento do estrato herbáceo, arbustivo e arbóreo das espécies do bioma. Em espécies arbóreas e arbustivas a delimitação climática não influencia estritamente o comportamento de floração e frutificação, pois suas espécies possuem sistemas radiculares profundos ou órgãos de reserva, sendo possível observar ocorrência de floração ao final da estação seca e em qualquer outra época do ano. Já plantas herbáceas, por possuírem sistemas radiculares superficiais e crescimento limitado pela seca, seus eventos de floração e frutificação estão ligados diretamente à estação chuvosa. Contudo, principalmente para espécies arbóreas e arbustivas, dizer que apenas um fator conduziria tal comportamento é um equívoco, pois na verdade o que ocorre é a atuação parcial do fator climático juntamente com interações ecológicas com os polinizadores (Figura 3), histórias evolutivas e história da comunidade.


Figura 3. Polinizadores visitando espécies de Campo Sujo. A. Beija-flor Amazilia fimbriata vistando flores de Palicourea officinalis (Rubiaceae). B. Abelha Bombus sp. visitando flores de Palicourea coriaceae (Rubiaceae).

Paralelamente aos fatores mencionados, o período de dispersão de sementes também determina o período da floração de muitas espécies. Em espécies que as sementes são dispersas pelo vento (chamadas anemocóricas – Figura 4A) a maturação ocorre ao final da estação seca para facilitar seu deslocamento. Em contra partida, sua floração tem que coincidir com o período anterior ao da dispersão. Nas espécies cujas sementes são dispersas por animais (chamadas zoocóricas – Figura 4B) a floração encontra-se no período anterior as chuvas, pois a atividade de seus dispersores parece ser maior durante a estação chuvosa. Independentemente do fator de influência, a ocorrência da não sobreposição do período de floração entre o estrato herbáceo e o arbóreo-arbustivo pode ser uma estratégia vantajosa para ambos, pois diminui a competição por polinizadores aumentado assim o sucesso reprodutivo das espécies do bioma.


Figura 4. Espécies de cerrado em período de dispersão de sementes. A. Kielmeyera coriaceae (Guttiferae) representando uma espécie que as sementes são dispersas pelo vento. B. Ouratea hexasperma (Ochnaceae) representando uma espécie que as sementes são dispersas por animais.

Muitos ramos de estudo, tanto científicos quanto ligados à utilização direta dos recursos naturais pelo homem, podem usufruir de alguma forma dessas informações que regem o comportamento de floração das espécies do Cerrado. Contudo, o uso sustentável de tais recursos é de extrema importância para a conservação efetiva da biodiversidade e para que o uso desses recursos torne-se viável e contínuo.

Referências bibliográficas

Ribeiro, J. F., & Walter, B. M. T. 2001. As Matas de Galeria no contexto do bioma Cerrado. pp. 29-47. In: Ribeiro, J. F., Fonseca, C. E. L. & Sousa-Silva, J. C. 2001. Cerrado, caracterização e recuperação de Matas de Galeria. Planaltina: Embrapa Cerrados. 899p.
Oliveira, P. E. & Paula, F. R. 2001. Fenologia e biologia reprodutiva de plantas de Matas de Galeria. Pp. 303-332. In: Ribeiro, J. F., Fonseca, C. E. L. & Sousa-Silva, J. C. 2001. Cerrado, caracterização e recuperação de Matas de Galeria. Planaltina: Embrapa Cerrados. 899p.
Ribeiro, J. F., Bridgewater, S., Ratter, J. A. & Sousa-Silva, J. C. Ocupação do bioma Cerrado e conservação da sua diversidade vegetal. pp. 385-399. In: Scariot, A., Sousa-Silva, J. C. & Felfili, J. M. 2005. Cerrado: ecologia, biodiversidade e conservação. 439p.